Bisturis e banhos químicos: o trabalho cirúrgico para salvar fotos e documentos centenários em Witmarsum

Em laboratório montado no Heimat Museum, equipe local remove desde fitas adesivas antigas a excrementos de insetos para estabilizar acervo raríssimo.

PALMEIRA (PR) – O trabalho de preservação histórica nos bastidores do Heimat Museum, em Witmarsum, lembra muito o rigor de um centro cirúrgico. Munidas de pincéis, algodão, bisturís e solventes químicos especiais, as técnicas do museu realizam o minucioso restauro preventivo de um acervo que soma cerca de 17 mil peças, viabilizado pelo edital do PROFICE.

O processo começou pelo acervo iconográfico (fotografias), onde a equipe enfrenta o desafio de reverter os danos causados pelo tempo e pelo armazenamento inadequado ao longo das décadas. “O processo inicial de higienização primária remove o que chamamos de sujidades: poeira, excrementos de insetos, restos de comida e interferências humanas desastrosas, como colas e fitas adesivas antigas”, explica a museóloga Samara Veliz de Lima. O uso do bisturi exige precisão milimétrica para raspar resíduos grossos, enquanto solventes químicos específicos entram em cena para diluir colas secas ou tintas de caneta sem agredir a emulsão original da foto.

A segunda fase — focada nos mais de 13 mil documentos — tem sido ainda mais delicada. Muitos papéis históricos sofrem com a acidez natural do tempo, tornando-se quebradiços e escuros. Para salvá-los, o projeto prevê um processo de imersão, uma espécie de “banho químico” para alcalinizar o papel, seguido por pequenos remendos estruturais para estabilizar as folhas rasgadas.

A precisão exigida no projeto é tanta que a seleção da equipe interna passou por um teste inusitado. A museóloga manchou propositalmente fotografias de seu arquivo pessoal para treinar as colaboradoras locais antes de manusear o acervo oficial. “Analisamos quem era mais delicada, quem tinha o olhar mais clínico e, a partir dali, designamos as tarefas dentro do museu”, revela Samara. O mapeamento e a triagem inicial do acervo foram coordenados por pela equipe interna do museu. 

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